Em Acra, deitado, observava lagartixas de quase 30 centímetros no teto, de cabeça e rabo alaranjados, que paravam e ficavam levantando e abaixando o corpo como quem faz flexões. Pela manhã, quando acordava, não era raro encontrar uma hóspede na área dos banheiros com as portas abertas: de cócoras, quando urinavam ou no espelho quando penteavam o cabelo, com somente uma toalha enrolada à cintura. Elas, mesmo com seus filhos por perto, não se intimidavam com a presença dos estranhos que passavam no corredor.

Quando deixava a hospedagem para andar pela cidade, não encontrava o que podia ser chamado de centro da cidade. Ora apareciam as casas de papelão, ora as casas de tijolo com a tinta descascada e com infiltrações. Em nenhum ponto havia calçadas ou a sarjeta era coberta. Nas áreas de maior circulação de pessoas, passava de tudo pelas ruas: vans coreanas e sedans europeus da década de 1980, bicicletas, carrinhos de mão, transeuntes e cabras. Ao lado, por trás da sarjeta e ao longo da rua empoeirada e de ar pesado, a vida doméstica, com mulheres de chapéu de palha com um metro de diâmetro, para amenizar o sol quente, assam peixes, fritam bananas, raspam mandiocas, vendem meias, calças jeans, balas ou lavam roupas, sempre rodeadas por crianças descalças, vestidas apenas com uma camiseta.

No meio desse movimento, um imponente hotel cinco estrelas de uma rede norte-americana, cercado por muros de mais de dois metros coberto por cacos de vidro. De fora, ouvimos saltos e gargalhadas de estrangeiros, na piscina. Ao lado, num lixão, crianças vasculhavam recipientes na procura de algo e um ensurdecedor terminal para o transporte local.

Em Acra não havia uma rua à beira-mar, como eu estava acostumado, do jeito que toda cidade grande praiana possui: contornada por bares e prédios. Havia, sim, meias-águas cobertas de zinco e casas iguais a choupanas cobertas de sapé, com crianças saindo das portas, como abelhas da colméia. Uma dessas comunidades é formada por descendentes de afro-brasileiros: gente que voltou depois da abolição da escravatura no Brasil. Comunidade fácil de ser identificada pelo cântico, em forma de lamento, sob o ritmo do berimbau, atabaque e agogô numa roda de capoeira. Acharam que eu estava subestimando-os por não querer entrar na roda, na verdade estava acanhado de mostrar meus desajeitados movimentos.