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| “Girou a cadeira lentamente, posicionou-a em direção ao oeste e viu o sol recolher-se preguiçosamente entre as montanhas. Há quase um século assistia ao mesmo espetáculo, nem sempre da cadeira e do terraço do apartamento que, aos poucos, se transformaram no seu mundo. Como uma velha águia pairando sobre o mundo, captou com os olhos o dourado brilho destes últimos raios antes que a noite os engolisse. Com a mão direita digitou no teclado da cadeira: vida, dois pontos. Baixou os olhos em direção aos pés e não viu mais os pés do ancião, mas sim os pés de um menino, um dedo sangrando, machucado numa pedra. Um par de gastas sandálias levavam o menino para longe dos seus temores. Olhou para trás e viu o sol se pondo entre as torres da igreja. Sabia que assim que escurecesse bandos de morcegos sairiam das torres para suas misteriosas vidas noturnas. Muitas vezes sentira curiosidade em saber por que a casa de deus abrigava tantos seres das trevas. Levou ainda muitos anos para entender que os morcegos eram anjos comparados aos verdadeiros seres das trevas que habitavam o chão das igrejas, travestidos de padres e freiras. Enquanto limpava, com umas folhas arrancadas à beira da estrada, o sangue do seu dedo machucado, ainda não fazia idéia de que estava fugindo de pessoas que com o correr do tempo o transformariam num eunuco a serviço de um deus criado pelas mentes doentias de homens, alguns ávidos de poder e outros fugindo da responsabilidade de assumir seus próprios atos. Arrependeu-se de não ter calçado sapatos.” |
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