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| Dois Mundos
O sol, intimidado por dias líquidos, apenas tateia o horizonte e continua dormindo em seu travesseiro-nuvem. Mais uma manhã anfíbia se arquiteta na vida dos humanos desestruturando a ordem natural: casais descompassados por causa dos guarda-chuvas; roupas sujas; pais irritados levando filhos irritados à escola; o trânsito amontoando-se nas esquinas; o asfalto, agora nascedouro de buracos; a lama nos arredores esquecidos expondo as incompetências políticas. É como se o respirar urbano estivesse enferrujando de tanta umidade.
Numa rodovia, na parte norte da cidade, a preguiça do sol e o esforço da chuva em parecer eterna, não alteram a ordem estabelecida há tempos. Numa margem, um pasto enfeitado com garças e bois respira sua rotina verde. Ali, o mundo dos primeiros imigrantes está intacto: a modernidade permitida é o cabo de telefone e da luz elétrica. Nesse lado, a vida segue o ritmo brando das árvores, da grama crescendo apenas para ser ruminada pelos bovinos. Neste lado, a vida é ordenhar as vacas às seis horas da manhã, limpar a estrebaria, varrer o rancho, plantar algo e consertar a velha porta do paiol. Talvez limpar um valo obstruído pelas ervas-de-bicho, pela braquiária. Assustar-se com uma cobra d’água que apareceu de repente. Comprar telhas para a varanda da casa e botas novas.
Do outro lado da rodovia, a grande fábrica de eletrodomésticos ocupando o silêncio de tudo em seus 202.163 metros quadrados de área construída. Entre árvores, vê-se as altas paredes, imagina-se a linha de montagem ritmando mãos, olhos e pensamentos dos trabalhadores. A tecnologia determinando o volume de produção. Nesse lado, o mundo capitalista se concentra em avidez e beleza. Geladeiras, freezers e secadoras são diariamente cuspidos daqui para a vontade consumista do mundo. A organização metódica, a uniformização das máquinas e dos homens, o gigantismo portentoso dos galpões e dos jardins artificiais permanecem inalterados, faça chuva, sol ou nuvem.
Cortando os contrários, a rodovia segue agüentando o peso dos caminhões, ônibus e carros. Agüenta também o peso das pessoas que passam entre os dois mundos sem enxergar nenhum.
Vizinhando tudo, alguns postes de concreto abandonados. Foram esquecidos pelo lado moderno da rodovia e agora agonizam próximos dos bois. É um exílio triste, sua natureza cinza pode combinar com o tempo atual, mas destoa do universo verde-fixo que habita o pasto. |
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