Efêmero Crônica de Sarah Roeder Há pouco era segunda, agora, um passo e é domingo. Levantas, dizes bom dia e, em seguida já estás dormindo. Os dias passam, como quadros de um filme mudo. Vai homem apressado! Trabalha bastante para pagar a prestação do carro, a gasolina, do carro que te leva mais rápido para o trabalho. Corre! Corre muito, homem apressado. Corre para pegar o último ônibus lotado. Não há problemas se conseguires chegar no horário. Vão os meses de tua vida, na estúpida corrida. O relógio está acelerando (ou tu estás errando?). O ponteiro segue depressa, devorando os minutos que te restam. Menos um, menos um. E o que é tudo isso, senão diferentes (ou repetidos) minutos sucessivos? Não lê este livro, tens que acordar cedo para esperar a vida inteira pela justa promoção que nunca chega. Vais à missa com as crianças no domingo. Dizes ao padre que pecaste. Invejaste o estofado de veludo do teu primo. Jogas mais um calendário no lixo. Sapato novo, terno bonito. Formatura do teu filho. Mais um atrasado entre os milhares pendurados nos ponteiros do relógio. Enterro do teu pai e das muitas palavras que deixaste para falar na hora certa. Vestido branco, cinco números maior. Bodas de prata. Retratos coloridos, sem a vitalidade de outrora. A pequena árvore no jardim da tua infância, já está velha e feia. Não chegaste a tempo de colher os belos frutos de seus galhos. Teu joelho esquerdo não funciona. E não conseguiste decorar aquele poema. Esperas em filas, para retirar a aposentadoria. Compras os remédios para a osteoporose da Maria. Rugas, muitas. Sorrisos, poucos. Caminhas devagar até a porta. O relógio na parede também está velho, mas ainda assim, não perde o compasso. Pegas a bengala, vai rápido homem apressado. O agente funerário não pode ficar esperando. Os espelhos da casa estão todos quebrados. Os calendários na parede já não são mais trocados. E o relógio acaba por vencer.