(...) Eu chegara ao terceiro dia hospedado na casa de Ejaz e ainda não tinha visto sua esposa, mesmo sabendo que ela morava na mesma casa. Perguntando a Ejaz sobre o paradeiro dela, ele responde que “quando há visita, as mulheres da casa devem ficar na cozinha ou no quarto” (lugares aos quais não tive acesso). Como sinto que tenho liberdade de fazer perguntas, indago como um muçulmano do Paquistão vê uma mulher na sociedade. Ele desvia um pouco da pergunta, mas diz que “está escrito no Alcorão, os homens têm autoridade sobre as mulheres porque Deus os fez superiores a elas”. Enquanto conversamos e tomamos chá, de uma maneira descontraída, faço uma pergunta referente ao direito da mulher ao voto, no seu país. Além de afirmar que é proibido, ele diz “se minha mulher votar eu a mato e com a mesma faca vou a mesquita e sou perdoado por Alá”. Gilgit é uma cidade tão conservadora que mulher desacompanhada pelo marido não pode circular pela cidade, nada muito diferente do que pregavam os talibãs do Afeganistão. Minha despedida de Ajaz, mesmo após ouvir as frases assustadoras, é mais umas daquelas de doer o coração.
Eu sai um pouco da rota original para conhecer um pouco das montanhas do Baltistão, a região em conflito com a Índia. A área de conflito é conhecida mundo afora como Caxemira. Envolve a província indiana de mesmo nome e a província do Baltistão, no Paquistão.
A viagem até a principal cidade do Baltistão, Skardu, foi de quatro horas em uma apertada van, onde num banco (para três) colocam cinco pessoas. Na parte superior, em meio as mochilas, cabras nos acompanhavam. Se a estrada de Rawalpindi até Gilgit já foi de amedrontar, essa daqui era ainda mais estreita e na maior parte do trajeto só passava um veículo, por vez à beira de penhascos. Eu fazia figa em cada curva para não encontrarmos outros veículos, porque penhasco abaixo havia fortes corredeiras. As dezenas de pontes são em madeira e suspensas. Cada travessia, a não mais que 20 km/h, era acompanhada por rangidos de todos os cantos e placas advertindo para não fotografar as pontes.
Skardu é uma pequena cidade a 2.400 metros do nível do mar e a 40 quilômetros da fronteira com a Índia. A todo o momento aviões Mirrage, das forças armadas, davam rasantes pelo vale. Para três das cinco montanhas que o Paquistão possui, com mais de 8.000 metros, o acesso começa por Skardu, entre eles o da K2, a segunda montanha mais alta do mundo, com 8.611 metros. Em 2004 foram celebrados os 50 anos da conquista do topo por um italiano.
Na mesma hospedagem que fiquei, estavam diversos comerciantes paquistaneses hospedados. Surgiram muitas perguntas a respeito do Brasil, inclusive perguntaram quantas montanhas o Brasil tinha acima de 8.000 metros. Controlando a recepção e sendo também o cozinheiro, Marghazar, de 22 anos, tinha cara de tibetano, sempre preparando comidas apimentadas e oleosas à base de frango e arroz. Enquanto Marghatar preparava um jantar, um dos comerciantes comentou: “Marghatar foi contratado para atender os serviços domésticos, ou seja, fazer o que uma mulher faz, ele não é homem”.
Compreendi aí que Marghatar é um eunuco. Relatórios dos Direitos Humanos da Anistia Internacional apontam que no Paquistão existe tráfico de meninos eunucos para trabalhar com as famílias de maior poder aquisitivo. (...)
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