Diário de viagem: Lusaka 2006

Uma visita patrocinada pela Federação Mundial de Neurologia ao

Hospital Universitário de Ensino

Universidade do Zâmbia

Muitas vezes, durante estas duas semanas, na verdade onze dias em Lusaka, lembrei do que disse Renatinho Almeida, com sua usual veia cômica e no seu sotaque muito pessoal: “Dr. Paulo, eu já imaginava coisas incríveis do senhor, mas África central, eu não! Nem patrocinado por federação mundial de nada. Terceiro mundo basta aqui, meu negócio é Piccadilly Circus!” Se ele encara como terceiro mundo o Hospital Santa Cruz e a Pracinha do Batel, em Curitiba, vou trazê-lo comigo da próxima vez. No segundo dia ele estaria falando “The horror, the horror!“, como Marlon Brando, em Apocalypse Now, no personagem que Francis Ford Coppola copiou de Joseph Conrad, Kurz, que era belga e estava perdido nas florestas do Congo, in “The Heart of Darkness”. Livro indispensável.

Não sei com que idade comecei a querer vir à África central. Mas, com 23 anos fiz a primeira tentativa séria, cheguei a Marrakesh, na beira do Saara. As viagens eram muito caras, muito longas, longas mesmo, de semanas a meses, através de países conflagrados, em guerra, e eu não tinha interesse de repetir a experiência de meu pai, indo ao apartheid dos países do sul do continente. Aos 35 cheguei perto novamente, indo a Luxor, no Alto Nilo, coração do Egito. Aos 45 fiz outra tentativa com o Senegal, mas não fui bem-vindo pelos neurologistas de lá. Não deu certo até agora, e acabei vindo para cá numa hora inapropriada para minhas funções profissionais e familiares, daí o curtíssimo período, e a vontade de voltar outras vezes. A segunda razão para eu vir foi a vontade de contribuir, de maneira objetiva, direta, palpável, com início e fim, para o bem estar da população mais desgraçada do planeta, nem que fosse um mínimo.