Guilherme Schiochet é exemplo da trajetória de família com muitos alfaiates. Ele próprio realiza seu aprendizado com Cyrillo, seu irmão alfaiate, e, por sua vez, ensina a profissão a dois de seus filhos, Osnir e Juvenal. Osnir nasce em 27 de outubro de 1935 e é o mais velho dos seis filhos. O seu aprendizado foi “forçado por um problema de saúde familiar”, conforme nos relata:

 

Meu pai teve seis filhos, sendo eu o mais velho. Ele queria que eu estudasse e fui para o “Ginásio São Luís”, onde estudei até o segundo ano do ginásio. Entretanto, aconteceu um problema muito sério na família, minha mãe ficou muito doente e meu pai me tirou dos estudos, devia voltar para casa para ajudá-lo. Com 13 anos iniciei o aprendizado na profissão, mas comecei a levar a sério somente aos 15 anos de idade. Eu fui obrigado a abrir mão dos meus estudos para aprender a ser alfaiate. Tudo isso foi se somando às dificuldades da vida, na época.

 

Como é que aprendi a ser alfaiate?

Primeiro tinha que aprender a sentar numa cadeira e pegar um pedaço de pano, um retalho qualquer, uma agulha com fio e ir treinando os dedos, passando por ali, chuleando, sabe como é! Treinando os dedos com a agulha, aprendendo a segurar a agulha na mão e chuleando e aprendendo. Na época não tinha aquela máquina de chulear, então, a gente começava a chulear a mão. Era o primeiro serviço que a gente aprendia a fazer para os fios do tecido não se desfazerem. Naquela época a tecnologia não era avançada e não se ouvia falar em máquinas zigue-zague. Então, se começava assim.

É difícil aprender a profissão de alfaiate, é demorado, leva mais de dois anos e, para afinar, leva muitos anos. De fato, nunca se acaba de aprender. Eu me considerei um alfaiate depois de cinco ou seis anos de aprendizado. Eu comecei a trabalhar com a agulha, depois fui cortando e sempre aprendendo, sempre me aperfeiçoando. A gente nunca pode dizer que sabe tudo, que está perfeito. Primeiro tem que ter o dom, se não tiver o dom não adianta porque precisa ter muita concentração. Ficar sentado, às vezes cortando, dividindo os milímetros, os centímetros...

 

Com o passar do tempo, os filhos de Guilherme vão assumindo a alfaiataria, que contava sempre com três profissionais, isto é, os irmãos, Osnir e Juvenal, e mais um alfaiate experiente. Sobre este tempo, Osnir diz que não fazia propaganda, pois os recursos utilizados eram a amizade, a conversa e o convencimento.

 

O meu pai conversava muito e o que eu vou falar diz respeito mais a época do meu pai. Quando chegou a minha época, as coisas foram mudando, a gente foi pegando outro ritmo, outro jeito, e a gente já colocou uma loja completa, artigos masculinos em geral, já facilitou muito mais.

Eu não vou dizer que eu não fazia propaganda. Ficar parado não se ficava e, com o tempo, eu fiquei o único alfaiate em Nereu, sem concorrência e a gente ficou mais a vontade. Quando tinha 15, 16, 17 anos, 20 anos eu jogava futebol, então o círculo de amizades era muito grande. Isso somava muito, fiquei conhecido em Corupá, tinha muitos fregueses lá. Isso já passou para o princípio da minha época, nos anos 60. Em 63 eu me casei, tinha 27 anos, e comecei a trabalhar por conta própria. Meu pai já estava desistindo nessa época. A alfaiataria ficou por minha conta. Daí para frente eu fiz a minha independência. E alfaiate, sabe, é uma profissão, não digo que ela é pobre, mas não é rica. O alfaiate precisa trabalhar muito para ter o seu rendimento.

 

Entre os alfaiates não existe quem não tenha histórias para contar e, sendo um deles, Osnir Schiochet relata um fato comum entre os alfaiates diante do freguês perfeccionista que reclama o defeito, imperceptível aos olhos do alfaiate. Nessa situação o alfaiate fazia o “conserto de cabide”.