A notícia – 03/04/2007

Quando os bonecos dominam a cena

Segundo número da revista "Móin-móin" é lançado na Capital

DELUANA BUSS

Florianópolis

No ano passado, em uma iniciativa cultural multimilionária lançada pelo governo inglês, Punch & Judy foram oficialmente incluídos entre os dez "ícones da Inglaterra", ao lado, entre outros, dos ônibus vermelhos londrinos e do peixe com batatas fritas. A façanha da dupla de bonecos, presente na Inglaterra desde o século 17, reforça a importância mundial do teatro de formas animadas, e está descrita em detalhes em um dos dez artigos reunidos na segunda edição da revista de estudos "Móin-móin", especializada nessa prática teatral, que será lançada hoje em Florianópolis.

Depois de discorrer, na primeira edição publicada há um ano, sobre "o ator no teatro de formas animadas", a publicação, editada pelo professor e encenador Valmor Níni Beltrame e pelo diretor teatral Gilmar Moretti, por meio de uma parceira entre a Sociedade Cultura Artística (Scar), de Jaraguá do Sul, e a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), agora se debruça sobre o tema "tradição e modernidade no teatro de formas animadas".

Basta ler o artigo do marionetista e diretor teatral inglês Glyn Edwards sobre Punch & Judy para perceber esse embate. Afinal, ao longo dos séculos as apresentações com os populares personagens mantiveram seu roteiro básico, mas ganharam novos cenários, falas e coadjuvantes, e hoje são presença constante até em festinhas de criança.

Mas o artigo de Glyn Edwards está lá pela metade da “Móin-móin”, e bem antes, já no primeiro texto, de autoria do pesquisador Marco Souza, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é feita uma providencial viagem aos primórdios da criação teatral. Ali, ficamos sabendo que o teatro de animação é uma forma de arte cênica que envolve desde bonecos até máscaras, passando por objetos, formas, luzes, sombras, efeitos tecnológicos e o próprio corpo do ator. E mais: o teatro de animação trabalha basicamente com a procura por movimentações que possam transmitir expressão para o objeto inanimado. E mais ainda: muitas vezes, esse teatro, devido a mal-entendidos e preconceitos, é colocado em posição subalterna em relação ao panorama das artes cênicas. “Ledo engano, em permanente espera de requalificação artística, o teatro de animação é, literalmente, palco para uma intrincada seqüência de experiências estéticas”, escreve Souza.

A revista ainda fala sobre o teatro de bonecos na Itália, Alemanha, Portugal, Argentina, África e Brasil.

 

Diário Catarinense – Caderno Cultura 10/02/2007

Reflexões sobre a lua

Segunda edição da Móin-Móin – Revista de estudos sobre teatro de formas animadas equilibra tradição e modernidade

Com o objetivo de divulgar as pesquisas artísticas realizadas pelos grupos de teatro e as reflexões teórico-práticas produzidas nas universidades, chega às livrarias o segundo número da Móin-Móin – Revista de estudos sobre teatro de formas animadas.

Com o tema Tradição e modernidade no teatro de formas animadas, a única publicação do gênero no país reafirma o caráter da tradição na contemporaneidade e já no primeiro artigo, Tradição, modernidade, teatro, animação e Kuruma Ningyo, de Marco Souza (PUC-SP), o debate ganha fôlego. “O teatro, no transcorrer das épocas, sobreviveu, basicamente, através de uma disputa constante entre tradição e modernidade que, freqüentemente, permite uma discussão sobre o passado e uma organização de concepções apropriadas ás mudanças do tempo.”

No segundo artigo, a Itália, que já no século XVII exportava bonequeiros, é radiografada por John McCornick (University of Dublin) em O teatro de bonecos na Itália: “A grande era do teatro italiano de bonecos foi do início do século XIX até a metade do século XX. A sátira floresceu em Roma devido à natureza especial da cidade, governada por eclesiásticos e controlada por um Papa, que muitas vezes era extremamente autoritário e hostil ao entretenimento”.

Outro convidado ilustre da revista, o marionetista e diretor teatral inglês Glyn Edwards, descortina em Punch & Judy os meandros que levaram os personagens homônimos ao reconhecimento entre os dez ícones da Inglaterra, lista em que figuram também os ônibus londrinos vermelhos e o chá das cinco. Dentre os principais aspectos que possibilitaram a disseminação e reconhecimento do espetáculo Punch & Judy, está o sociológico, devidamente analisado no artigo, que ainda traz as principais transformações no enredo de um dos principais descendentes da commedia dell'arte , que seduziu até Charles Dickens. “Punch não faz parte do establisnment cultural, ele é uma figura da cultura popular – é verdadeiramente do povo – e foi o povo quem o manteve vivo através dos séculos.”

Outro personagem de grande apelo popular é abordado por Conceição Rosiére, do Grupo de Teatro de Bonecos Patati & Patatá (Minas Gerais), que em Kasper – O personagem do teatro popular alemão parte do ano 1175 até os dias de hoje, para mostrar o poder de sedução do Kaspertheather. “Durante a Segunda Guerra Mundial, o Teatro de Bonecos foi instrumento de propaganda para os soldados nazistas e soviéticos. Na Alemanha, a partir de 1938, foi criado o Centro de Teatro de Bonecos do Terceiro Reich, sob a jurisdição do Ministério da Propaganda Nazista, em que estereótipos antigos e novos dos espetáculos de Kasper eram empregados como agitação racista e anti-semita.”

Christine Zurbach, da Universidade de Évora (Portugal), reconstitui o trabalho do grupo Bonecos de Santo Aleixo e do Teatro de Marionetas do Porto em seu artigo Presença(s) do teatro de marionetas em Portugal hoje e mostra a importância do teatro de João Paulo Seara Cardoso no desenvolvimento de um novo conceito para o teatro de formas animadas português. “Após o período de intensa dinamização da vida cultural que se seguiu à Revolução dos Cravos, em que o recurso à marioneta, para fins de natureza educativa ou de animação sócio-cultural foi muito intenso e quase sistemático, a própria arte do teatro de marionetas acabou por impor-se, enquanto tal, na sua especifidade.” Outro país que recebe uma análise profunda é a Argentina. Tito Lorefice, da Universidad General San Martin, em Reflexiones sobre tradición y modernidad en el teatro de títeres en Argentina mostra como no início do século passado a visita de uma companhia italiana, o início da carreira de Javier Villafañe e a residência provisória de Federico García Lorca afetaram profundamente a capital portenha e como a vanguarda se instaurou no pós-ditadura:  “El artista siempre es um intelectual. Hay muchos intelectuales que no son artistas, pero no existe artista que no sea intelectual. Señalamos arriba que el teatro piensa, que el teatro sabe, que en el arte hay saberes específicos: técnicos, metafóricos, metafísicos, terapêuticos, sociales, políticos”. Da Argentina para o Brasil, Izabela Brochado, da Universidade de Brasília aborda O mamulengo e as tradições africanas de teatro de bonecos. Os bonecos do mamulengo, normalmente esculpidos em madeira mulungu e freqüentemente caracterizados com peles de animais ou plásticos, possuem forte expressividade visual e dramática e seguem encantando gerações. “Em geral,  o mamulengueiro possui por volta de vinte diferentes cenas, que raramente são apresentadas todas num mesmo show. A seleção e ordenação das cenas depende do contexto da apresentação, ou seja, do local, do público a que se destina do tempo disponível para a realização do trabalho.”

As tradições brasileiras também são resgatadas no artigo de Tácito Borralho, da Universidade Federal do Maranhão, que em Os elementos animados no Bumba-meu-boi do Maranhão desfila os principais personagens que povoam o folclore popular das formas animadas: os sotaques, a descrição e as formas de manipulação dos elementos animados. “O bumba-meu-boi é uma expressão do teatro popular, viva, que se reinventa, que se transforma enquanto mantém sua tradição.”

Marcos Malafaia, do Giramundo Teatro de Bonecos abre a caixa-preta do grupo em Giramundo: memórias de um teatro de bonecos. No artigo, Marcos expõe os principais períodos do grupo, o Lagoa Santa, quando a oficina ficava em Lagoa Santa e as peças eram produzidas com recursos próprios, o período universitário, quando a oficina funcionava na UFMG, que gerou clássicos como Cobra Norato (1979) e As relações Naturais (1983) e o período institucional, onde após a ruptura com a UFMG o grupo se firmou no triângulo “Museu-Teatro-Escola”. “Mas, o mais importante aglutinador foi a figura carismática de Álvaro Apocalypse (um dos fundadores), que atraiu e formou gerações de bonequeiros, ensinando, de modo exemplar mais que ordenado e regular, procedimentos e condutas fundamentais para o ofício.”

O último artigo da revista, A marionete no espírito das vanguardas históricas (uma desculpa para falar de Tadeusz Kantor), escrito por Wagner Cintra, da UNESP,  faz uma viagem pelas vanguardas e propõe uma reflexão acerca do papel do ator e da importância de Tadeusz Kantor, que assombrou o mundo com seu Teatro Cricot 2. “O principal nutriente das vanguardas era o desejo de reduzir o texto e a literatura em proveito da imagem, do objeto, do gesto e do jogo, de reduzir parte do teatro, no sentido ocidental do termo, em benéfico do sensível, do concreto, em resumo: das artes plásticas.”

Editada pelo professor e encenador Valmor Níni Beltrame e pelo diretor teatral Gilmar Moretti através de uma parceira entre a Sociedade Cultura Artística - SCAR, de Jaraguá do Sul e a Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC - com apoio do Governo do Estado de Santa Catarina, a revista deve seu nome a Margarethe Schlünzen; marionetista falecida em 1978, que encantava as crianças de Jaraguá do Sul durante as décadas de 50 e 60 e era recebida efusivamente nas escolas pelo coro “Guten morgen, guten morgen” ou “bom dia, bom dia” em alemão, expressão que tornou o trabalho da artista conhecido como “Teatro da Móin-móin”. Como lembram os editores da revista na apresentação, a relação tradição e modernidade é simbolizada por um trecho de um poema de Bertolt Brecht: “e na mudança da lua, a lua nova segura a lua velha, uma noite inteira nos braços”.